7.29.2018

Passarinho

(Foto não autoral encontrada no Google)


As vezes a dor vem de maneira silenciosa, tão quieta que se estende dentro de você sem fazer alarde. Como um câncer se espalhando pelas células, morte que anda na ponta dos pés para não acordar sua alma brilhante que dorme profundo em uma falsa sensação de segurança. 

Mas parte de mim acredita que nenhuma dor é silenciosa, nós é que inventamos isso para confortar nossos corações aflitos e a negligência para com nossos sentimentos. 
Essa parte de mim puxa meus cabelos para chamar minha atenção, para que eu volte das nuvens onde minha cabeça estava e olhe a verdadeira realidade em volta, escute os gritos das mágoas e ressentimentos grudados nas paredes de casa. Me mostrando que o sofrimento é escandaloso, mas que nós escolhemos ficar surdos para sobreviver. Abafando as vozes dos fantasmas que se escondem atrás dos retratos, que choram testemunhando as tristezas que vivemos, que eles já viveram  e sabem que não vão levar a nada. 
As vezes converso com eles, quando as dores de cabeça vem e não posso continuar com meus fones de ouvido. 
Eles sussurram uns por cima dos outros:
"Lute!"
"Lute e depois voe, Passarinho"
"Suas asas ainda são novas e bonitas Passarinho, então voe para longe..." 
"Conheça o mundo, Passarinho"
"Conheça pessoas, Passarinho"
"Aprenda, Passarinho"
"Ame Passarinho"
"Não seja como nós, Passarinho, vivemos a gritar e chorar dentro de nós mesmos"
"Ecos perdidos nas paredes, presos em nossas dores até que possamos perdoar nossas feridas e nossos agressores" 
"Até perdoarmos a nós mesmos" 
"Vá Passarinho e não olhe para trás" 
"Sabemos que dá medo, mas aqui é só uma gaiola onde te machucaram alegando ser amor" 
"Te incentivaram a voar Passarinho, mas só dentro da gaiola" 
"Que liberdade é essa, Passarinho?" 
"Que amor é esse, Passarinho?" 
"Voe Passarinho"
"Viva Passarinho". 


               Gomes,Fernanda

7.02.2018

Fuja de mim



Estou andando, mas não sei ao certo onde estou. Ao meu redor tudo é escuro e frio. A névoa é densa e corre por meus tornozelos como serpentes, é tão úmida que sinto meus pulmões arderem e meus olhos lacrimejarem ao respirar profundamente, mas se não fizer isso meu coração acelera e começo a entrar em pânico.
Além da névoa a realidade é como um pesadelo distante que aos poucos se aproxima, está se fechando ao meu redor tentando me sufocar, é confusa e inconsistente alterando-se ao mais breve olhar com sombras de criaturas sujas de olhos negros e dentes maiores que a boca, elas rastejam pela névoa a minha procura. Entre elas há alguma coisa que espreita e me acompanha passo a passo, posso sentir. O medo é quase tão intenso quanto o cálido suor que escorre por meu pescoço então resisto a vontade de olhar para trás.
Não me lembro como cheguei aqui e nem onde esse “aqui” realmente é. Penso que talvez esteja dormindo, mas parece tão real que esta hipótese quase não se sustenta. Sinto meus jeans favoritos roçando nos meus pés descalços, sinto o chão frio sob eles. É real. De alguma forma. Penso em gritar por alguém, mas a intensa presença que me sonda esmaga minha garganta enquanto me esforço para continuar calma, tenho certeza de que se eu parar essa sombra me ataca. Ando. Mais depressa de repente. Ainda mais. Só tenho uma chance de escapar, correr o mais rápido possível, despista-la. Então eu corro mesmo sem saber para onde vou. Tento não manter um padrão para que não me pegue. Corro tanto e tão depressa que meus músculos reclamam, meus pulmões queimam, meus pés doem pelo atrito. Não desisto.
Atrás de mim ela corre, tão depressa quanto eu, mais selvagem, menos humana. Ouço um rosnado tão alto que reverbera dentro de mim, me faz tremer os ossos. Um som metálico segue o rosnado, parecem garras, elas cortam o ar e o chão enquanto a besta se impulsiona para frente e me pergunto quanto tempo levará para que me corte também. Ela ri com escarnio como se tivesse escutado meus pensamentos. Tremo de novo.  Ainda não sei onde estou, a quanto tempo estou correndo ou para onde estou indo. Ela ri de novo, e rosna e fere o ar com as garras, com os dentes.
Sinto um cheiro metálico, é forte, enjoa e é familiar também. Sinto algo escorrer por meus braços, talvez seja o suor da corrida, mas é pegajoso e escorre pesado até meus cotovelos. Estendo meus braços a minha frente, eles sangram. Não sei de onde vem, não há ferimentos visíveis embora doa dentro de mim, como se por dentro tivessem arrancado pedaços e colocado a pele por cima, macia e perfeita a estender-se como um tapete sobre a sujeira mal varrida. O sangue apenas serve de combustível para o monstro que me persegue que respira fundo a cada gota que caí pelo caminho e rosna mais. Não posso olhar mas imagino a saliva escorrendo por entre os dentes salientes, os músculos tencionando em excitação pela caçada, pela presa certa.
Sinto que está tão próxima agora, já poderia estraçalhar minha sombra caso houvesse luz o bastante para ter uma. Sinto que me ouviu de novo, como é possível que ouça meus pensamentos? Não importa, não há tempo para pensar nisso já que sua ânsia aumenta e ela acelera ainda mais, as garras tão ágeis no solo fazem som de lâminas. Um arrepio me atingi, como se me avisasse que já não há mais como fugir.
As garras atingem minhas costas tão fundo que arqueio enquanto grito, enquanto desabo. Tremula coloco a mão direita sob as costas para avaliar o estrago enquanto com a mão esquerda me arrasto para frente. Não há cortes, mas há sangue outra vez, mais uma ferida invisível.
Sinto mãos de dedos gélidos a agarrar-me os tornozelos, arrastando e virando em sua direção. Não tem porque gritar ou para quem. As criaturas escondidas nas sombras, aquelas que não conseguiram me encontrar antes, parecem mais perto, sussurrando e rosnando em puro êxtase. A criatura a minha frente solta uma das mãos e rasga o ar, o brilho das garras ensanguentadas e o rosnado gutural afugenta as pequenas criaturas intrometidas. Então me segura de novo, me puxa como uma boneca de trapos. Prende-me com um braço a cada lado de meu corpo e se aproxima acima de mim, tão próxima que sinto sua pele gelada tocando minhas roupas.
Seu rosto ainda é confuso e não consigo coloca-la em foco, como se meus olhos não quisessem ver como realmente era. Forço-me a enxergar enquanto aproxima, cara a cara finalmente. Encho meu peito de uma coragem que devo ter roubado de alguém em algum momento e que prometo mentalmente devolver um dia. Ela olha para mim, tão fundo em meus olhos, olhos cheios de medos enquanto os dela são cheios de raiva e de uma crueldade lasciva.
Que monstro é esse que sabe exatamente onde me ferir sem deixar marcas visíveis? Que dilacera minha alma e banha meu corpo em sangue? Sabe exatamente onde fincar os dentes e matar-me por dentro. Olho de novo para ela, para o rosto todo e o grito que saí de mim vai além da garganta e do pulmão, chega até o mais profundo dos meus segredos. Porque por baixo das fileiras de dentes afiados, dos olhos mais assombrados, reconheço minha besta, a única que poderia me fazer tão mal. Muito mais do que qualquer outro pequeno monstro por aí, a única que poderia me encontrar e alcançar não importando para que direção eu corra, a única de quem não posso fugir. A única que pode me destruir totalmente.... Ela sou eu. Porque as vezes nossos maiores monstros não surgem debaixo da cama, mas sim de dentro de nós.
                                          Gomes, Fernanda.