Estou andando, mas não sei ao certo onde estou. Ao meu redor tudo
é escuro e frio. A névoa é densa e corre por meus tornozelos como serpentes, é tão
úmida que sinto meus pulmões arderem e meus olhos lacrimejarem ao respirar
profundamente, mas se não fizer isso meu coração acelera e começo a entrar em
pânico.
Além da névoa a realidade é como um pesadelo distante que aos
poucos se aproxima, está se fechando ao meu redor tentando me sufocar, é
confusa e inconsistente alterando-se ao mais breve olhar com sombras de
criaturas sujas de olhos negros e dentes maiores que a boca, elas rastejam pela
névoa a minha procura. Entre elas há alguma coisa que espreita e me acompanha
passo a passo, posso sentir. O medo é quase tão intenso quanto o cálido suor
que escorre por meu pescoço então resisto a vontade de olhar para trás.
Não me lembro como cheguei aqui e nem onde esse “aqui” realmente
é. Penso que talvez esteja dormindo, mas parece tão real que esta hipótese
quase não se sustenta. Sinto meus jeans favoritos roçando nos meus pés
descalços, sinto o chão frio sob eles. É real. De alguma forma. Penso em gritar
por alguém, mas a intensa presença que me sonda esmaga minha garganta enquanto
me esforço para continuar calma, tenho certeza de que se eu parar essa sombra
me ataca. Ando. Mais depressa de repente. Ainda mais. Só tenho uma chance de
escapar, correr o mais rápido possível, despista-la. Então eu corro mesmo sem
saber para onde vou. Tento não manter um padrão para que não me pegue. Corro
tanto e tão depressa que meus músculos reclamam, meus pulmões queimam, meus pés
doem pelo atrito. Não desisto.
Atrás de mim ela corre, tão depressa quanto eu, mais selvagem, menos
humana. Ouço um rosnado tão alto que reverbera dentro de mim, me faz tremer os
ossos. Um som metálico segue o rosnado, parecem garras, elas cortam o ar e o
chão enquanto a besta se impulsiona para frente e me pergunto quanto tempo
levará para que me corte também. Ela ri com escarnio como se tivesse escutado
meus pensamentos. Tremo de novo. Ainda
não sei onde estou, a quanto tempo estou correndo ou para onde estou indo. Ela
ri de novo, e rosna e fere o ar com as garras, com os dentes.
Sinto um cheiro metálico, é forte, enjoa e é familiar também.
Sinto algo escorrer por meus braços, talvez seja o suor da corrida, mas é
pegajoso e escorre pesado até meus cotovelos. Estendo meus braços a minha
frente, eles sangram. Não sei de onde vem, não há ferimentos visíveis embora
doa dentro de mim, como se por dentro tivessem arrancado pedaços e colocado a
pele por cima, macia e perfeita a estender-se como um tapete sobre a sujeira
mal varrida. O sangue apenas serve de combustível para o monstro que me
persegue que respira fundo a cada gota que caí pelo caminho e rosna mais. Não
posso olhar mas imagino a saliva escorrendo por entre os dentes salientes, os
músculos tencionando em excitação pela caçada, pela presa certa.
Sinto que está tão próxima agora, já poderia estraçalhar minha
sombra caso houvesse luz o bastante para ter uma. Sinto que me ouviu de novo,
como é possível que ouça meus pensamentos? Não importa, não há tempo para
pensar nisso já que sua ânsia aumenta e ela acelera ainda mais, as garras tão
ágeis no solo fazem som de lâminas. Um arrepio me atingi, como se me avisasse
que já não há mais como fugir.
As garras atingem minhas costas tão fundo que arqueio enquanto
grito, enquanto desabo. Tremula coloco a mão direita sob as costas para avaliar
o estrago enquanto com a mão esquerda me arrasto para frente. Não há cortes,
mas há sangue outra vez, mais uma ferida invisível.
Sinto mãos de dedos gélidos a agarrar-me os tornozelos,
arrastando e virando em sua direção. Não tem porque gritar ou para quem. As
criaturas escondidas nas sombras, aquelas que não conseguiram me encontrar
antes, parecem mais perto, sussurrando e rosnando em puro êxtase. A criatura a
minha frente solta uma das mãos e rasga o ar, o brilho das garras
ensanguentadas e o rosnado gutural afugenta as pequenas criaturas intrometidas.
Então me segura de novo, me puxa como uma boneca de trapos. Prende-me com um
braço a cada lado de meu corpo e se aproxima acima de mim, tão próxima que
sinto sua pele gelada tocando minhas roupas.
Seu rosto ainda é confuso e não consigo coloca-la em foco, como
se meus olhos não quisessem ver como realmente era. Forço-me a enxergar
enquanto aproxima, cara a cara finalmente. Encho meu peito de uma coragem que
devo ter roubado de alguém em algum momento e que prometo mentalmente devolver
um dia. Ela olha para mim, tão fundo em meus olhos, olhos cheios de medos
enquanto os dela são cheios de raiva e de uma crueldade lasciva.
Que monstro é esse que sabe exatamente onde me ferir sem deixar
marcas visíveis? Que dilacera minha alma e banha meu corpo em sangue? Sabe
exatamente onde fincar os dentes e matar-me por dentro. Olho de novo para ela,
para o rosto todo e o grito que saí de mim vai além da garganta e do pulmão,
chega até o mais profundo dos meus segredos. Porque por baixo das fileiras de
dentes afiados, dos olhos mais assombrados, reconheço minha besta, a única que
poderia me fazer tão mal. Muito mais do que qualquer outro pequeno monstro por
aí, a única que poderia me encontrar e alcançar não importando para que direção
eu corra, a única de quem não posso fugir. A única que pode me destruir
totalmente.... Ela sou eu. Porque as vezes nossos maiores monstros não surgem debaixo da cama, mas sim de dentro de nós.
Gomes, Fernanda.
Texto novo, espero que gostem! Tem sido muito bom escrever e compartilhar esses fragmentos de história aqui, mas adoraria um interação de todos que tiram um tempinho pra ler. Não esqueça de deixar sua opinião, é bastante importante. Obrigada!
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