9.17.2018

Eu Acreditava



(Imagem não autoral, retirada do Pinterest) 
Eu acreditava que o céu é azul, mas não é
Isso é uma mentira
Azul são seus olhos, quinze diferentes nuances de azul
Em apenas um par de olhos.
O céu é como uma lagoa cinza
Refletindo toscamente a cor do seu olhar.

Eu acreditava que as rosas eram vermelhas, mas não são
Isso é um engano
Vermelho são seus lábios... e seu vestido favorito.
As rosas são cinzas
Refletindo porcamente os lábios teus.

Eu acreditava que o som da chuva me fazia dormir, não faz
O som da chuva é agressivo e assustador
Diferente de seus afagos em meus cabelos, constantes e gentis...
São eles que me fazem dormir.

Eu acreditava que minha canção favorita era alguma do Sinatra, não é.
Minha música predileta é o som da sua voz
Quando sussurra baixo no meio da noite com medo de acordar alguém...
Mesmo que só tenha nós dois em casa.
Ou da sua risada alta no meio do restaurante
Quando todos olham e invejam
A sua ousadia em ser feliz.

Quando jovem eu acreditava que meu lugar favorito
Seria algum bar aconchegante na Europa, não é.
Meu lugar favorito é qualquer lugar
Onde a distância seja pouca
Para que eu possa segurar seus dedos sempre que puder,
E eu quero fazer isso o tempo todo.

Minhas roupas mais confortáveis
São suas pernas entrelaçadas nas minhas
E sua respiração pesada em meu pescoço.

Eu acreditava que conhecia cores,
Que conhecia o mundo, a vida...
Estava errado.

Estou conhecendo agora,
Que tenho você.

                                                                 Fernanda Gomes 

9.04.2018

Bêbados



       A madrugada se estende sobre nós tornando tudo mais sombrio, mas não percebo. Talvez porque você seja tão escuro quanto o horizonte, com uma ou outra estrela para iludir um amante de astronomia como eu que não percebe a inferioridade do brilho fraco emanado por suas medíocres estrelas comparado a tantas outras que encheriam muito mais meus olhos. Estrelas mais fáceis de encontrar, se ao menos eu conseguisse entender isso, mas não entendo. Talvez porque aos meus olhos não existam estrelas mais belas do que as suas.
Desisto de tentar me reabilitar. Vou me deixar acabar em seus caprichos enquanto ainda sou capaz. Venha e junte-se a mim nesta mesa fuleira de um bar qualquer que nem lembraremos o nome amanhã. Onde as bebidas são baratas e fortes, o calor é constante nos fazendo deixar as camisas um pouco abertas demais e a música é alta. Exatamente como a primeira vez que nos encontramos. Dessa vez o bar será bem aqui em sua cama e eu serei sua garrafa, sua taça, sua bebida.
Renda-se a mim, amanhã restará apenas uma terrível ressaca. Sobreviveremos. Mas enquanto a manhã não chega beba de mim até a última gota. Somos ambos sangue, pele, calor e álcool. Somos tudo e nada. Pequenos e grandes. Amor e amor. E loucura...
Não me deixe sair daqui até que todo meu corpo seja seu, até que eu lhe tenha tocado cada centímetro. Bêbados de um amor proibido da qual merecemos cada garrafa. E mesmo quando tudo tiver sido feito agarre-me pela cintura, beije meus lábios, olhe nos meus olhos tão diferentes dos seus, abrace nossos corpos iguais e não me deixe partir jamais.
Somos tão um do outro agora que é impossível nos separar completamente. Porque somos alcoólatras, bebendo doses de paixão e amando tanto que é impossível se cansar. Nunca vamos nos cansar.

(nenhuma das imagens utilizadas são autorais, direitos reservados a produção do filme
Me Chame Pelo seu Nome)

                                                                                                                              Fernanda Gomes.

Apostei tudo o que tinha

(imagem não autoral)


Embebedei-me tanto em sua alma que um alcoólatra foi o que me tornei. Sem conseguir me manter longe, pensando que poderia me controlar e beber apenas o necessário, fiquei. Poderia depois partir como você fez tantas outras vezes, caso fosse preciso. Não fui nenhuma vez. Um estupido de merda é o que sou.  
Mais uma noite. E depois do primeiro gole já estou em êxtase e como o terrível viciado que sou não me satisfaço até que não sobre nada. Nada de mim. Nada de você. A essa altura a sobriedade é um sonho distante e a loucura um alívio traiçoeiro. Em meus delírios clamo como um beato ao seu senhor, “banhe-me em sua glória! ”, eu imploro. E você sorri, como o demônio disfarçado que é, poderia ser o próprio Lúcifer. Meu salvador. Minha perdição.
Se esconde atrás de sua beleza angelical, os cabelos louros encaracolados, os olhos doces, o sorriso fácil, sempre vestindo roupas leves de cores claras. Quem não se apaixonaria? E pior ainda, quem acreditaria em mim ao dizer que você não gosta de nenhum de nós?
Mais uma noite e é tudo um grande jogo para você, mas nunca me chamou realmente para uma partida, não expôs as cartas na mesa, não me disse o que estava disposto a apostar enquanto eu colocava tudo que tinha de mais valioso, meu coração e minha alma. O suposto prêmio era muito tentador, quem ganhar leva tudo, mas você era um jogador nato e sabia blefar como ninguém. Enquanto eu tinha certeza que estava fazendo uma boa jogada e que estávamos sempre a um ponto de empatar e assim seriamos um do outro, você sorria triunfante sabendo que ia ganhar. Suas armas são letais, diz que sou livre para ir mas cortou minhas asas para não te deixar.
Não faria isso, sei que não. Eu lhe cobriria de amor apenas e você iria rir.
“Por que sorri? ”
“Um garoto inocente é que você é. E isso me faz sorrir”
“Então me deixe menos inocente”
“E por que eu faria isso? Se a graça está exatamente em te manter como é? Deixe-me usar sua pureza, ela que aquece meu coração nos dias gelados. Como um dia eu aqueci também o de um outro alguém”
“E até quando ele te servirá? “
“Até que você não tenha nada para me dar”.
Mais uma noite e estou acordado sem sono algum. Não tenho fome, mas roo as unhas. Está calor, mas sinto frio. E tremo. E soou. E vejo nas sombras vultos que me assombram pelo simples fato de não serem você. É a abstinência que me assola e paralisa, que me corta com facas os movimentos e me faz pensar o tempo todo nas doses de você que poderia estar usando agora mesmo.
Tento me controlar para não ir até você. Já não tenho mais nada que possa te interessar e você sabe disso, o que posso trocar por seu amor? Eu trocaria tudo, se soubesse que aqueles momentos de paixão eram reais, mas no fundo sei que não são, nunca foram. Essa certeza é que me amarra as mãos na cabeceira da cama em correntes e cadeados. É o que me faz parar de ranger os dentes e também vez ou outra as lembranças de nós dois que passam como um terrível filme sob meus olhos. Quem me dera conseguir arranca-las de trás de minhas retinas e atira-las em você com toda força, afiadas para te ferir.
Não posso, em vez disso pego agulhas e linhas para me consertar, remendar os pedaços faltando e as asas quebradas, dói muito. Muito mais que qualquer ferida já aberta em meus pulsos. Mas enquanto traço no horizonte um novo destino, muito menos doloroso, aos poucos todas essas dores abertas... cicatrizam.

                                              Fernanda Gomes.