![]() |
| (imagem não autoral) |
Embebedei-me tanto em sua alma que um alcoólatra
foi o que me tornei. Sem conseguir me manter longe, pensando que poderia me
controlar e beber apenas o necessário, fiquei. Poderia depois partir como você
fez tantas outras vezes, caso fosse preciso. Não fui nenhuma vez. Um estupido
de merda é o que sou.
Mais uma noite. E depois do primeiro gole já
estou em êxtase e como o terrível viciado que sou não me satisfaço até que não
sobre nada. Nada de mim. Nada de você. A essa altura a sobriedade é um sonho
distante e a loucura um alívio traiçoeiro. Em meus delírios clamo como um beato
ao seu senhor, “banhe-me em sua glória! ”, eu imploro. E você sorri, como o
demônio disfarçado que é, poderia ser o próprio Lúcifer. Meu salvador. Minha
perdição.
Se esconde atrás de sua beleza angelical, os
cabelos louros encaracolados, os olhos doces, o sorriso fácil, sempre vestindo
roupas leves de cores claras. Quem não se apaixonaria? E pior ainda, quem
acreditaria em mim ao dizer que você não gosta de nenhum de nós?
Mais uma noite e é tudo um grande jogo para você,
mas nunca me chamou realmente para uma partida, não expôs as cartas na mesa,
não me disse o que estava disposto a apostar enquanto eu colocava tudo que
tinha de mais valioso, meu coração e minha alma. O suposto prêmio era muito
tentador, quem ganhar leva tudo, mas você era um jogador nato e sabia blefar
como ninguém. Enquanto eu tinha certeza que estava fazendo uma boa jogada e que
estávamos sempre a um ponto de empatar e assim seriamos um do outro, você
sorria triunfante sabendo que ia ganhar. Suas armas são letais, diz que sou
livre para ir mas cortou minhas asas para não te deixar.
Não faria isso, sei que não. Eu lhe cobriria de
amor apenas e você iria rir.
“Por que sorri? ”
“Um garoto inocente é que você é. E isso me faz
sorrir”
“Então me deixe menos inocente”
“E por que eu faria isso? Se a graça está
exatamente em te manter como é? Deixe-me usar sua pureza, ela que aquece meu
coração nos dias gelados. Como um dia eu aqueci também o de um outro alguém”
“E até quando ele te servirá? “
“Até que você não tenha nada para me dar”.
Mais uma noite e estou acordado sem sono algum.
Não tenho fome, mas roo as unhas. Está calor, mas sinto frio. E tremo. E soou.
E vejo nas sombras vultos que me assombram pelo simples fato de não serem você.
É a abstinência que me assola e paralisa, que me corta com facas os movimentos
e me faz pensar o tempo todo nas doses de você que poderia estar usando agora
mesmo.
Tento me controlar para não ir até você. Já não
tenho mais nada que possa te interessar e você sabe disso, o que posso trocar
por seu amor? Eu trocaria tudo, se soubesse que aqueles momentos de paixão eram
reais, mas no fundo sei que não são, nunca foram. Essa certeza é que me amarra
as mãos na cabeceira da cama em correntes e cadeados. É o que me faz parar de
ranger os dentes e também vez ou outra as lembranças de nós dois que passam
como um terrível filme sob meus olhos. Quem me dera conseguir arranca-las de
trás de minhas retinas e atira-las em você com toda força, afiadas para te
ferir.
Não posso, em vez disso pego agulhas e linhas
para me consertar, remendar os pedaços faltando e as asas quebradas, dói muito.
Muito mais que qualquer ferida já aberta em meus pulsos. Mas enquanto traço no
horizonte um novo destino, muito menos doloroso, aos poucos todas essas dores
abertas... cicatrizam.
Fernanda Gomes.
Fernanda Gomes.

Texto sobre amores tão falsos quanto os blefes em jogos de azar.
ResponderExcluirEspero que goste e não se esqueça de deixar sua opinião, é muito importante e faz toda a diferença!! Obrigada. <3