6.17.2018

Sob a luz que ela habita



Foi no começo do outono que ela me viu pela primeira vez, me viu de verdade como ninguém jamais havia visto, mas eu já estava completamente a mercê dela. Nem sei bem quando começou, se era inverno ou primavera, porque estar com ela era sentir o mais puro calor do Sol. Como abraçar uma estrela sem se queimar. Era luz, era verdadeiro. Assim como tudo sobre ela. 
Pensei que passar o verão longe seria difícil, sem as aulas não poderia cruzar com ela nos corredores com o sorriso forçadamente perfeito para todos, verdadeiramente belo para os amigos.  Mas a sorte, que nunca me visita, resolveu sorrir para mim. Ela se apaixonou por filmes pouco antes das férias e ia todas as sextas – feiras e finais de semana ao cinema em que eu trabalhava. Não era um lugar muito popular, não estava à altura dela. Era um lugar velho e histórico cheio de fantasmas enrolados em projetores, era úmido e frio, cheirava a manteiga por toda parte. E mesmo assim ela parecia encantada.
Geralmente eu punha os filmes para rodar, sentava em uma cadeira ao lado do projetor e assistia as mesmas produções dezenas de vezes por semana até decorar as falas, as músicas, anotar cada detalhe, desvendar cada mistério dos bastidores. Depois que ela começou a aparecer não conseguia tirar os olhos dela. À vi sem querer da primeira vez chegando atrasa e tentando não atrapalhar ninguém. A partir daí passei a ficar debruçado na janela da cabine observando-a, cada reação de espanto e ansiedade eram deliciosas, só não mais tocantes do que vê-la chorar assistindo uma obra dramática. Genuína é a única palavra que parece combinar com ela.
Genuína em suas emoções, em suas reações, em sua beleza, em sua profundidade, em sua inteligência. Olhar em seus olhos era como atravessar o Sol e chegar ao mais profundo dos universos, repleto de mistérios e de escuridão.  
Tentei me convencer de que não tínhamos nada em comum que - diferente de todas as obras clichês em que os protagonistas são exatamente opostos e mesmo assim se apaixonam e tudo sobre eles faz sentido de repente, porque estarem junto é o mais importante - nós dois não tínhamos nenhuma chance. No entanto a medida que nos aproximávamos ignorando todo e qualquer bom senso, eu era capaz de ver as sombras por traz da luz que ela emanava, como se tentasse esconder de todos.
Não porque se envergonhava de seus próprios demônios, na verdade ela parecia compreende-los muito bem, mas escondia-os para proteger quem estivesse ao seu redor. Diferente de mim que exibia os meus como obras de arte em um leilão e com isso afastava a todos, ela os guardava tão dentro de si que só quem realmente admirasse sua alma veria os vultos que hora ou outra passavam ligeiros pelos cantos se esgueirando como mofos nas paredes, resistindo a luz que ela deixava entrar pelas janelas de si mesma.
         Não espero que ela acabe de vez com seus pesadelos e nem que sucumba a eles, quando tudo se torna escuro e frio é como se a cor e a vida fugissem de você aos poucos. E diferente das pessoas a sua volta, não espero que ela não cometa erros. Sua perfeição está exatamente nas peculiaridades que carrega. Espero apenas crescer ao lado dela, mostrar que não está sozinha, que nunca vai estar.
E mesmo que dentro dela tudo transbordasse iluminado e inundasse cada átomo ela ainda sim me fez brigar pelas centelhas de luz que aos poucos sumiam de dentro de mim.
 Já tinha aceitado quem eu era, que tudo o que perdi na vida era minha culpa, tinha desistido de qualquer traço mais marcado de felicidade. Mas ela apareceu e me fez lutar. Lutei por mim. Lutei por ela. Para ser digno dela. E continuarei ao seu lado por todos os invernos e primaveras. Porque no fim das contas a verdadeira luz de que preciso está com ela e a única escuridão que não me assusta está no fundo dos olhos dela.
Gomes, Fernanda


6.13.2018

Sob a escuridão que ele habita




O outono se aproxima como um furacão de folhas alaranjadas e silenciosas. Junto com ele o amor se estende e sussurra frio em meus ouvidos inesperadamente, me fazendo arrepiar.
Ou talvez seja sua voz, seus olhos, sua sombra a cada dia maior quase a engoli-lo por inteiro. Mas ainda posso ver aquela faísca de luz em seu olhar, tão sólida quanto um fogo azul endurecido por todas as coisas que já viveu.
Tem somente 18 anos e fuma como uma chaminé no inverno mais rigoroso. Tem somente 18 anos e cuida de sua motocicleta como um especialista. Só 18 anos e amarra suas botas como um verdadeiro veterano de guerra que faz tudo com firmeza e agilidade. E com 18 anos viu seu pai beber até cair inúmeras vezes, sua irmã chorar dentro de seus braços desde pequenos, foi para isso que ele amadureceu tão rápido, para protege-la da realidade dura que os cercavam. Mesmo assim não foi o bastante, sua mãe não o julgou forte o suficiente e, na verdade, ele podia jurar que ela o achava fraco... como todos os outros também e por isso elas foram embora e o deixaram para trás.
Não teve escolha se não viver sozinho nos fundos de um galpão qualquer. Tinha um amigo ou dois com quem podia conversar, fumar, matar aula. Não tinha ninguém com quem realmente contar, com quem compartilhar sua genialidade incompreendida. Não se julgava digno de intimidade e calor humano.
Mesmo assim eu o vi, sob seus demônios lutando com unhas e dentes pela parte da alma que ainda preservava dentro de si. E agradeço por ter visto e por ele ter me visto também, ainda que rápido demais e sem jeito. Não espero que tire sua jaqueta costurada de pesadelos e mostre um mocinho perfeito de filmes infantis, muito menos que se cubra inteiro de escuridão e perca-se de si mesmo.
Espero apenas mostrar a parte do mundo que conheço e que não parece fazer parte da vida dele, quero mostrar a beleza que vejo ao olhar para ele, tão peculiar e intensa como o isqueiro talhado a mão que carrega no bolso esquerdo das calças largas demais para alguém que não vive nos anos 80. Sua escuridão me atraiu como a um morcego procurando abrigo do Sol indomável ao iniciar mais um dia, no entanto mais do que isso, a necessidade de me abrigar em sua alma clara e mantê-la acesa me consume como uma vela na noite mais escura, não parece suficiente, mas é tudo o que tenho.
E de alguma forma tenho a certeza de que sempre terei essa necessidade, como o ar que preciso para respirar, como a centelha de amor que ele consegue transpirar por cada célula, mesmo que pense que ninguém está lá para reparar...Eu estou... e continuarei, desde os primeiros raios de Sol ás últimas horas da noite, para sempre.

Gomes, Fernanda

6.12.2018

SUPERAR



Acordei. Olhei pela janela. Amanheceu. E a luz intrusa que se esgueirava pelas persianas semiabertas denunciavam um dia de Sol. Levantei-me, abri as persianas, as janelas, a porta que dava para a varanda. Debrucei-me sobre o parapeito.
Era sem dúvida alguma um dia perfeito, as poucas nuvens no céu são tão grandes e claras que projetam sombras nas árvores a minha frente, me fez lembrar daqueles imensos balões dos desfiles de feriados, pensar nisso me fez pensar nele e em como ficava empolgado com esses desfiles estúpidos. Assim como todo o resto.
Ele era um amante da vida e o mundo era seu quarto. Não havia um lugar em que não se sentisse a vontade ou uma pessoa que não se apaixonasse por ele. Não os culpo por isso, como poderia? Olhar para ele era como olhar aqueles quadros renascentistas de pessoas na praia. Trazia paz, trazia alegria e te fazia imaginar como era estar ali, como era ser aquelas pessoas, como era ser ele. Sentir o que ele sentia, ver do jeito que ele via. Como se cada amanhecer fosse um milagre e cada anoitecer um pequeno bigbang que nos permitia observar melhor as maravilhas do universo.
Cada estrela devia estar chorando sua perda, assim como cada pássaro, cada flor, cada um dos tantos autores que ele admirava. Mas nenhum deles fez isso, porque nenhum deles sabia. Então chorei por eles, por cada um, por todos juntos. Mas não adiantou. Não fez com que a Morte ou seu orgulho se movessem nem mesmo um centímetro, não precisava ser muito, apenas o suficiente para que ele pudesse escapar e fugir... e correr... e correr ainda mais rápido... e ... voltar.
Para onde meus braços ainda aguardam abertos a sua espera, onde meu coração aguarda apertado pelas garras da mágoa que me consomem, onde meus pulmões queimam sufocados por todas as palavras que não disse, onde minhas pernas tremem, pois o mundo nunca mais pareceu firme o bastante para caminhar só.
Talvez por isso eu prefira não levantar por muito tempo, embora as vezes seja preciso. Se eu não me levantar mais os lençóis ficarão com meu cheiro e perderão o dele, não poderei ver uma manhã como a de hoje e procurar por ele em cada uma dessas coisas. E então não encontrar e sentir aquela dor.
Porque a dor faz sentido, é a única coisa que ainda faz sentido em meio as alegrias vazias que me cercam, os sorrisos falsos de afeto, os abraços apertados demais. A dor é tão real, é quase tão grande quanto o amor que sinto por ele, que me consome e me agita, que suplica para que eu abra sua prisão e o deixe respirar e gritar que ainda há algo de bom dentro de mim, que ainda sou capaz de amar.
Como posso amar alguém que não seja ele? Como posso seguir em frente se todos os rascunhos de futuros e aventuras que fiz, e que ainda estão guardados no fundo daquela gaveta velha segura no fundo da minha mente, tem ele como meu companheiro de viagem? Desde que se foi, aparece somente no meio da noite com seus olhos frios me encarando ao lado da cama, os lábios tão firmes que parecem estar tentando a todo custo sufocar o último suspiro dentro de seus pulmões, porque mesmo que ele estivesse tranquilo eu sabia que não queria partir.
Já faz algumas noites que isso não acontece mais, acho que estamos superando juntos. Ele lá e eu aqui.
Percebo que está anoitecendo, o vento frio do crepúsculo me desperta de velhas lembranças deliciosamente dolorosas. Percebo que não chorei hoje, não me lembro se chorei ontem. Não estou certa de que chorarei amanhã. 
Aquela velha gaveta estala, range e geme pedindo para que abra meus rascunhos, passe a limpo o que for possível e volte a viver. Olho para o lado e o vejo, segurando minha mão. Não parece como o velho cadáver que vi sobre a cama do hospital e sim como o aventureiro curioso de que me lembro. Me olha nos olhos e sorri. Sinto que talvez eu possa voltar a sorrir também.
Peço para que fique. Ele diz que não pode, que seu tempo é curto e ele tem de voltar.
“ Para onde? ” – Pergunto
“ Para casa. “ – Responde com suavidade.
“ Mas e aqui? E eu? “
“ Será sempre meu lugar favorito no universo e antes que perceba estaremos juntos de novo”
É hora de entrar, de dormir. E amanhã, tudo de novo.
“ É sem dúvida alguma um dia perfeito. Porque você está aqui. Porque há vida em você e em mim, mas de formas diferentes. É hora de continuar, minha querida. Até um dia.”
Não me deixou falar, beijou-me a testa e partiu. Virando-se apenas para dizer:
“ Não se preocupe, sei de cada palavra sua, são minhas também. Não se preocupe com o amor, é meu também. Não precisa pensar em mim sempre, ainda estou por aí. “
Me distrai a tal ponto que a gaveta de planos se abriu, aproveitou-se do turbilhão de sentimentos e voou e cresceu sem permissão. Se infiltrou em minha imaginação e fincou suas raízes fundo em minha alma me permitindo pensar:
“ Posso superar ”.

Gomes, Fernanda