6.13.2018

Sob a escuridão que ele habita




O outono se aproxima como um furacão de folhas alaranjadas e silenciosas. Junto com ele o amor se estende e sussurra frio em meus ouvidos inesperadamente, me fazendo arrepiar.
Ou talvez seja sua voz, seus olhos, sua sombra a cada dia maior quase a engoli-lo por inteiro. Mas ainda posso ver aquela faísca de luz em seu olhar, tão sólida quanto um fogo azul endurecido por todas as coisas que já viveu.
Tem somente 18 anos e fuma como uma chaminé no inverno mais rigoroso. Tem somente 18 anos e cuida de sua motocicleta como um especialista. Só 18 anos e amarra suas botas como um verdadeiro veterano de guerra que faz tudo com firmeza e agilidade. E com 18 anos viu seu pai beber até cair inúmeras vezes, sua irmã chorar dentro de seus braços desde pequenos, foi para isso que ele amadureceu tão rápido, para protege-la da realidade dura que os cercavam. Mesmo assim não foi o bastante, sua mãe não o julgou forte o suficiente e, na verdade, ele podia jurar que ela o achava fraco... como todos os outros também e por isso elas foram embora e o deixaram para trás.
Não teve escolha se não viver sozinho nos fundos de um galpão qualquer. Tinha um amigo ou dois com quem podia conversar, fumar, matar aula. Não tinha ninguém com quem realmente contar, com quem compartilhar sua genialidade incompreendida. Não se julgava digno de intimidade e calor humano.
Mesmo assim eu o vi, sob seus demônios lutando com unhas e dentes pela parte da alma que ainda preservava dentro de si. E agradeço por ter visto e por ele ter me visto também, ainda que rápido demais e sem jeito. Não espero que tire sua jaqueta costurada de pesadelos e mostre um mocinho perfeito de filmes infantis, muito menos que se cubra inteiro de escuridão e perca-se de si mesmo.
Espero apenas mostrar a parte do mundo que conheço e que não parece fazer parte da vida dele, quero mostrar a beleza que vejo ao olhar para ele, tão peculiar e intensa como o isqueiro talhado a mão que carrega no bolso esquerdo das calças largas demais para alguém que não vive nos anos 80. Sua escuridão me atraiu como a um morcego procurando abrigo do Sol indomável ao iniciar mais um dia, no entanto mais do que isso, a necessidade de me abrigar em sua alma clara e mantê-la acesa me consume como uma vela na noite mais escura, não parece suficiente, mas é tudo o que tenho.
E de alguma forma tenho a certeza de que sempre terei essa necessidade, como o ar que preciso para respirar, como a centelha de amor que ele consegue transpirar por cada célula, mesmo que pense que ninguém está lá para reparar...Eu estou... e continuarei, desde os primeiros raios de Sol ás últimas horas da noite, para sempre.

Gomes, Fernanda

3 comentários:

  1. A todos que lerem peço que deixem um comentário. Opiniões, sugestões e críticas construtivas são sempre bem-vindas e não demora nem um minutinho, obrigada.

    ResponderExcluir
  2. Achei o texto ótimo! E ficarei muito feliz se houver uma continuação, o texto tem capacidade de se tornar uma grande história, idealizei um romance daramatico hahaha, fica a dica ;)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigada! Fico feliz de verdade que tenha gostado. Há um texto aqui que não chega a ser uma continuação, mas sim o o ponto de vista dele, caso tenha interesse.
      Estou amadurecendo a ideia e espero escrever uma história neste entorno ainda. Bom saber que alguém vai querer ler haha.
      Obrigada por comentar e caso tenha alguma sugestão estou aberta a ouvir. Beijos.

      Excluir