6.12.2018

SUPERAR



Acordei. Olhei pela janela. Amanheceu. E a luz intrusa que se esgueirava pelas persianas semiabertas denunciavam um dia de Sol. Levantei-me, abri as persianas, as janelas, a porta que dava para a varanda. Debrucei-me sobre o parapeito.
Era sem dúvida alguma um dia perfeito, as poucas nuvens no céu são tão grandes e claras que projetam sombras nas árvores a minha frente, me fez lembrar daqueles imensos balões dos desfiles de feriados, pensar nisso me fez pensar nele e em como ficava empolgado com esses desfiles estúpidos. Assim como todo o resto.
Ele era um amante da vida e o mundo era seu quarto. Não havia um lugar em que não se sentisse a vontade ou uma pessoa que não se apaixonasse por ele. Não os culpo por isso, como poderia? Olhar para ele era como olhar aqueles quadros renascentistas de pessoas na praia. Trazia paz, trazia alegria e te fazia imaginar como era estar ali, como era ser aquelas pessoas, como era ser ele. Sentir o que ele sentia, ver do jeito que ele via. Como se cada amanhecer fosse um milagre e cada anoitecer um pequeno bigbang que nos permitia observar melhor as maravilhas do universo.
Cada estrela devia estar chorando sua perda, assim como cada pássaro, cada flor, cada um dos tantos autores que ele admirava. Mas nenhum deles fez isso, porque nenhum deles sabia. Então chorei por eles, por cada um, por todos juntos. Mas não adiantou. Não fez com que a Morte ou seu orgulho se movessem nem mesmo um centímetro, não precisava ser muito, apenas o suficiente para que ele pudesse escapar e fugir... e correr... e correr ainda mais rápido... e ... voltar.
Para onde meus braços ainda aguardam abertos a sua espera, onde meu coração aguarda apertado pelas garras da mágoa que me consomem, onde meus pulmões queimam sufocados por todas as palavras que não disse, onde minhas pernas tremem, pois o mundo nunca mais pareceu firme o bastante para caminhar só.
Talvez por isso eu prefira não levantar por muito tempo, embora as vezes seja preciso. Se eu não me levantar mais os lençóis ficarão com meu cheiro e perderão o dele, não poderei ver uma manhã como a de hoje e procurar por ele em cada uma dessas coisas. E então não encontrar e sentir aquela dor.
Porque a dor faz sentido, é a única coisa que ainda faz sentido em meio as alegrias vazias que me cercam, os sorrisos falsos de afeto, os abraços apertados demais. A dor é tão real, é quase tão grande quanto o amor que sinto por ele, que me consome e me agita, que suplica para que eu abra sua prisão e o deixe respirar e gritar que ainda há algo de bom dentro de mim, que ainda sou capaz de amar.
Como posso amar alguém que não seja ele? Como posso seguir em frente se todos os rascunhos de futuros e aventuras que fiz, e que ainda estão guardados no fundo daquela gaveta velha segura no fundo da minha mente, tem ele como meu companheiro de viagem? Desde que se foi, aparece somente no meio da noite com seus olhos frios me encarando ao lado da cama, os lábios tão firmes que parecem estar tentando a todo custo sufocar o último suspiro dentro de seus pulmões, porque mesmo que ele estivesse tranquilo eu sabia que não queria partir.
Já faz algumas noites que isso não acontece mais, acho que estamos superando juntos. Ele lá e eu aqui.
Percebo que está anoitecendo, o vento frio do crepúsculo me desperta de velhas lembranças deliciosamente dolorosas. Percebo que não chorei hoje, não me lembro se chorei ontem. Não estou certa de que chorarei amanhã. 
Aquela velha gaveta estala, range e geme pedindo para que abra meus rascunhos, passe a limpo o que for possível e volte a viver. Olho para o lado e o vejo, segurando minha mão. Não parece como o velho cadáver que vi sobre a cama do hospital e sim como o aventureiro curioso de que me lembro. Me olha nos olhos e sorri. Sinto que talvez eu possa voltar a sorrir também.
Peço para que fique. Ele diz que não pode, que seu tempo é curto e ele tem de voltar.
“ Para onde? ” – Pergunto
“ Para casa. “ – Responde com suavidade.
“ Mas e aqui? E eu? “
“ Será sempre meu lugar favorito no universo e antes que perceba estaremos juntos de novo”
É hora de entrar, de dormir. E amanhã, tudo de novo.
“ É sem dúvida alguma um dia perfeito. Porque você está aqui. Porque há vida em você e em mim, mas de formas diferentes. É hora de continuar, minha querida. Até um dia.”
Não me deixou falar, beijou-me a testa e partiu. Virando-se apenas para dizer:
“ Não se preocupe, sei de cada palavra sua, são minhas também. Não se preocupe com o amor, é meu também. Não precisa pensar em mim sempre, ainda estou por aí. “
Me distrai a tal ponto que a gaveta de planos se abriu, aproveitou-se do turbilhão de sentimentos e voou e cresceu sem permissão. Se infiltrou em minha imaginação e fincou suas raízes fundo em minha alma me permitindo pensar:
“ Posso superar ”.

Gomes, Fernanda


3 comentários:

  1. Primeiro texto postado, espero que goste.
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    Obrigada.

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