12.27.2018

Girassol



(imagem não autoral, retirada do Pinterest)


Agarrando-me as pequenas sementes do seu amor perdi a noção de que nada brotaria
Reguei-as com esperanças na ilusão de que um dia dessem flores.
Mas as flores não nascem de esperanças
Elas nascem de sorrisos
Sorrisos como os que você dá a ela,
Me lembrando que não importa à quantas sementes eu me agarre, jamais verei o broto.
Para ela, você plantou uma roseira inteira
E ainda arrancou todos os espinhos para que ela não se ferisse,
Mesmo que ao fazer isso
Você cortasse suas mãos.
Guardei minhas sementes no fundo da memória,
Não são rosas como você gosta
Mas guardei para preservar,
Eram de girassol
Os girassóis que pretendia te dar.



(imagem não autoral, retirada do Pinterest)

11.02.2018

Mosaico




           Os dias escuros vem mesmo que você esteja feliz, mesmo que os motivos para agradecer sejam incontáveis. Começa com um pequeno incomodo vazio, como um quarto sem mobília ecoando seus pensamentos, mas fracamente e você se pergunta se realmente há algo ressoando ou se é só sua imaginação pregando uma peça. De qualquer maneira ignora como se não fosse algo que mereça atenção.
Com o tempo esse vazio aumenta, se expande como sombra que vem com o anoitecer, um buraco negro sugando sua luz. O eco é ensurdecedor e o abrigo perfeito para os piores pensamentos imagináveis que aparecem, sussurram, arranham, ameaçam, seduzem... Não sabe mais de onde eles vem, quase ouve sua própria voz dizer palavras ruins mesmo que nunca tenha sentido vontade de dize-las antes.
Você costumava ser feliz sem nem precisar pensar a respeito. Agora desconfia de qualquer momento de alegria e ao mesmo tempo os admira com olhos maravilhados.  As pessoas a sua volta são incríveis e você ama faze-las sorrir. Algumas delas você ama tanto que pensar ser capaz de viver de amor, mas não é o bastante.
Tem dias que a tristeza vem com braços esqueléticos e estranhamente fortes, mãos ossudas e geladas que te paralisam e doem no contato com a pele. Não parece existir forças o bastante para levantar, então você não levanta. Fica ali vendo o tempo passar, as horas correndo no relógio são tão angustiantes que
te fazem ranger os dentes. É como ouvir as batidas frenéticas de um coração, intermináveis e rápidas. Caminhando para um destino muito pesado e difícil de aguentar.
Você não quer ir embora, ainda há tanto para se ver, tantos lugares para conhecer, tanto para se aprender, tanto para amar. Mas você quer que a dor passe, quer cala-la junto com esse imenso vazio que é tão irregular e mutável que nada parece servir para preenche-lo. Quer que o silêncio não seja doloroso e nem que o barulho seja perturbador. Quer paz em vez de sentir com cada célula que tudo sobre você está errado e nunca será boa o suficiente.
Ainda assim você tenta melhorar, porque quer e precisa ser melhor. Porque é isso que o mundo merece... a sua melhor versão. O amor te alivia a alma então se agarra com unhas e dentes nesse bálsamo e reza para que alguém te ouça gritar com os olhos porque não quer falar com a boca. Não quer se sentir assim e muito menos que quem você ame saiba que está quebrada... e não sabe como consertar. Pegou os cacos do chão e em suas mãos eles já fizeram cortes, mas você não vai solta-los porque não quer desistir de tudo que você é, da imensidão da sua alma que consegue ser tão gentil.
Você precisa de um tempo e de ajuda para juntar todas as peças e refazer sua arte... porque é isso que você é.... uma obra de arte... inacabada... sempre tentando ser mais completa... sem perceber que já é genial!
Nunca será como antes, já não há mais partes inteiras. Mas há pedaços suficientes para construir algo novo e belo. E você pode fazer isso... faça isso!
Vai fazer o mosaico mais lindo, onde a cada nova descoberta, experiência, alegria e tristeza uma nova parte será agregada em sua jornada. Todas as pessoas que ama poderão ajudar porque cada uma delas tem um pedaço de você de que gostam muito, coloque de volta em você. Se lembre!
Não é fácil, mas é lindo e vale a pena então, por favor, reconstrua-se a tempo de ver os raios de sol entrarem e refletirem as cores de cada caquinho. Conte sua história, mostre sua beleza.


Viva!



(nenhuma das imagens é autoral, todas foram retiradas do Pinterest e possuem seus direitos reservados) 
                         

                                                                                                  Fernanda Gomes

10.10.2018

Apaixonados por você

Ao olhar para o mundo vejo você em cada pequena faísca de amor, em cada passo seguro e tranquilo na rua, em cada gargalhada espontânea no bar, no som do vento na copa das árvores, nas playlists de MPB. E nos sossegos da vida; nas ondas do mar, na cortina que balança no fim de tarde, no movimento sutil da rede. 
Eu que sempre preferi os dias frios me vi ansiando pelo calor e pelos dias de sol. Por aquele ar abafado, o céu azulado, os banhos de luz. Lembrando dos seus cabelos molhados secando sob meu rosto enquanto sentia o cheiro de verão emanar da sua pele e incendiar a minha. 
Você trouxe a vida que eu nem sabia que me faltava, me fez querer ser melhor. Acordou aos gritos a aventureira que sempre quis ser. E a cada nova descoberta me vejo mais encantada. 
Imagino você pequeno, corajoso e bondoso. Vivendo de sonhos com livros em sua volta e uma bola de futebol no canto, parece uma imagem clichê, mas isso é tudo que você não é. 
A unidicidade que forma cada pecinha desse quebra cabeças colorido monta a imagem mais especial, cada peça com um pedacinho da sua história e de quem você é. Posso afirmar com certeza que não existe nada igual. Talvez por isso seja tão fácil gostar de você.
O que só fortalece minha teoria de que, na verdade, somos todos um pouco apaixonados por você. E eu mais ainda.

 Fernanda Gomes

Farpa

(Imagem Pinterest)
Decidi escrever sobre você quando não conseguia passar nem mais um dia sem pensar em ti. Todos os dias, sem falta, acordo e me pergunto se dormiu bem, se está bem. E no decorrer das horas imagino as conversas que vamos ter, nunca dá pra prever e rendem muito. 
E em meio aos pensamentos minha mente se prende aos momentos que senti amar você tanto que pensei que explodiria. 
Vejo e revejo as cenas, tento sentir o calor do momento que invade meu coração sempre que você está perto. 
Sinto e ressinto cada alegria causada por um sorriso seu. 






Mas ainda sim... Dói... 





Dói lá no fundo quando a realidade me cerca e mostra que todo esse amor de nada lhe adianta. O amor que você quer é outro; mais encorpado, sentido... É aventura, é fantasia, é refrescante... 
Não é como o meu que incendeia e trepida; que é feroz, que é caos mas só quer o sossego de deitar sob a grama te abraçando apertado.
Dói na pele quando sinto o frio da sua falta e a falta do abrigo que você se tornou. 
Dói bem dolorido por saber que as canções que escuto e me lembram você, você também ouve... E lembra do amor que não é meu. 
Dói igual farpa no dedo; certeira e minúscula comparada com o amor, aparentemente inofensiva... Tão fácil de ser esquecida. 
Até que encosto na ponta afiada da vida mostrando quão bonito você está nessa foto... Com ela.. sempre com ela agora... 
A farpa traiçoeira lembra que nunca foi realmente removida; arde e deixa pulsando tudo em volta... Dolorido. 
Por dentro ela sangra, por fora não parece nem ferida. 






                Fernanda Gomes

9.17.2018

Eu Acreditava



(Imagem não autoral, retirada do Pinterest) 
Eu acreditava que o céu é azul, mas não é
Isso é uma mentira
Azul são seus olhos, quinze diferentes nuances de azul
Em apenas um par de olhos.
O céu é como uma lagoa cinza
Refletindo toscamente a cor do seu olhar.

Eu acreditava que as rosas eram vermelhas, mas não são
Isso é um engano
Vermelho são seus lábios... e seu vestido favorito.
As rosas são cinzas
Refletindo porcamente os lábios teus.

Eu acreditava que o som da chuva me fazia dormir, não faz
O som da chuva é agressivo e assustador
Diferente de seus afagos em meus cabelos, constantes e gentis...
São eles que me fazem dormir.

Eu acreditava que minha canção favorita era alguma do Sinatra, não é.
Minha música predileta é o som da sua voz
Quando sussurra baixo no meio da noite com medo de acordar alguém...
Mesmo que só tenha nós dois em casa.
Ou da sua risada alta no meio do restaurante
Quando todos olham e invejam
A sua ousadia em ser feliz.

Quando jovem eu acreditava que meu lugar favorito
Seria algum bar aconchegante na Europa, não é.
Meu lugar favorito é qualquer lugar
Onde a distância seja pouca
Para que eu possa segurar seus dedos sempre que puder,
E eu quero fazer isso o tempo todo.

Minhas roupas mais confortáveis
São suas pernas entrelaçadas nas minhas
E sua respiração pesada em meu pescoço.

Eu acreditava que conhecia cores,
Que conhecia o mundo, a vida...
Estava errado.

Estou conhecendo agora,
Que tenho você.

                                                                 Fernanda Gomes 

9.04.2018

Bêbados



       A madrugada se estende sobre nós tornando tudo mais sombrio, mas não percebo. Talvez porque você seja tão escuro quanto o horizonte, com uma ou outra estrela para iludir um amante de astronomia como eu que não percebe a inferioridade do brilho fraco emanado por suas medíocres estrelas comparado a tantas outras que encheriam muito mais meus olhos. Estrelas mais fáceis de encontrar, se ao menos eu conseguisse entender isso, mas não entendo. Talvez porque aos meus olhos não existam estrelas mais belas do que as suas.
Desisto de tentar me reabilitar. Vou me deixar acabar em seus caprichos enquanto ainda sou capaz. Venha e junte-se a mim nesta mesa fuleira de um bar qualquer que nem lembraremos o nome amanhã. Onde as bebidas são baratas e fortes, o calor é constante nos fazendo deixar as camisas um pouco abertas demais e a música é alta. Exatamente como a primeira vez que nos encontramos. Dessa vez o bar será bem aqui em sua cama e eu serei sua garrafa, sua taça, sua bebida.
Renda-se a mim, amanhã restará apenas uma terrível ressaca. Sobreviveremos. Mas enquanto a manhã não chega beba de mim até a última gota. Somos ambos sangue, pele, calor e álcool. Somos tudo e nada. Pequenos e grandes. Amor e amor. E loucura...
Não me deixe sair daqui até que todo meu corpo seja seu, até que eu lhe tenha tocado cada centímetro. Bêbados de um amor proibido da qual merecemos cada garrafa. E mesmo quando tudo tiver sido feito agarre-me pela cintura, beije meus lábios, olhe nos meus olhos tão diferentes dos seus, abrace nossos corpos iguais e não me deixe partir jamais.
Somos tão um do outro agora que é impossível nos separar completamente. Porque somos alcoólatras, bebendo doses de paixão e amando tanto que é impossível se cansar. Nunca vamos nos cansar.

(nenhuma das imagens utilizadas são autorais, direitos reservados a produção do filme
Me Chame Pelo seu Nome)

                                                                                                                              Fernanda Gomes.

Apostei tudo o que tinha

(imagem não autoral)


Embebedei-me tanto em sua alma que um alcoólatra foi o que me tornei. Sem conseguir me manter longe, pensando que poderia me controlar e beber apenas o necessário, fiquei. Poderia depois partir como você fez tantas outras vezes, caso fosse preciso. Não fui nenhuma vez. Um estupido de merda é o que sou.  
Mais uma noite. E depois do primeiro gole já estou em êxtase e como o terrível viciado que sou não me satisfaço até que não sobre nada. Nada de mim. Nada de você. A essa altura a sobriedade é um sonho distante e a loucura um alívio traiçoeiro. Em meus delírios clamo como um beato ao seu senhor, “banhe-me em sua glória! ”, eu imploro. E você sorri, como o demônio disfarçado que é, poderia ser o próprio Lúcifer. Meu salvador. Minha perdição.
Se esconde atrás de sua beleza angelical, os cabelos louros encaracolados, os olhos doces, o sorriso fácil, sempre vestindo roupas leves de cores claras. Quem não se apaixonaria? E pior ainda, quem acreditaria em mim ao dizer que você não gosta de nenhum de nós?
Mais uma noite e é tudo um grande jogo para você, mas nunca me chamou realmente para uma partida, não expôs as cartas na mesa, não me disse o que estava disposto a apostar enquanto eu colocava tudo que tinha de mais valioso, meu coração e minha alma. O suposto prêmio era muito tentador, quem ganhar leva tudo, mas você era um jogador nato e sabia blefar como ninguém. Enquanto eu tinha certeza que estava fazendo uma boa jogada e que estávamos sempre a um ponto de empatar e assim seriamos um do outro, você sorria triunfante sabendo que ia ganhar. Suas armas são letais, diz que sou livre para ir mas cortou minhas asas para não te deixar.
Não faria isso, sei que não. Eu lhe cobriria de amor apenas e você iria rir.
“Por que sorri? ”
“Um garoto inocente é que você é. E isso me faz sorrir”
“Então me deixe menos inocente”
“E por que eu faria isso? Se a graça está exatamente em te manter como é? Deixe-me usar sua pureza, ela que aquece meu coração nos dias gelados. Como um dia eu aqueci também o de um outro alguém”
“E até quando ele te servirá? “
“Até que você não tenha nada para me dar”.
Mais uma noite e estou acordado sem sono algum. Não tenho fome, mas roo as unhas. Está calor, mas sinto frio. E tremo. E soou. E vejo nas sombras vultos que me assombram pelo simples fato de não serem você. É a abstinência que me assola e paralisa, que me corta com facas os movimentos e me faz pensar o tempo todo nas doses de você que poderia estar usando agora mesmo.
Tento me controlar para não ir até você. Já não tenho mais nada que possa te interessar e você sabe disso, o que posso trocar por seu amor? Eu trocaria tudo, se soubesse que aqueles momentos de paixão eram reais, mas no fundo sei que não são, nunca foram. Essa certeza é que me amarra as mãos na cabeceira da cama em correntes e cadeados. É o que me faz parar de ranger os dentes e também vez ou outra as lembranças de nós dois que passam como um terrível filme sob meus olhos. Quem me dera conseguir arranca-las de trás de minhas retinas e atira-las em você com toda força, afiadas para te ferir.
Não posso, em vez disso pego agulhas e linhas para me consertar, remendar os pedaços faltando e as asas quebradas, dói muito. Muito mais que qualquer ferida já aberta em meus pulsos. Mas enquanto traço no horizonte um novo destino, muito menos doloroso, aos poucos todas essas dores abertas... cicatrizam.

                                              Fernanda Gomes.

7.29.2018

Passarinho

(Foto não autoral encontrada no Google)


As vezes a dor vem de maneira silenciosa, tão quieta que se estende dentro de você sem fazer alarde. Como um câncer se espalhando pelas células, morte que anda na ponta dos pés para não acordar sua alma brilhante que dorme profundo em uma falsa sensação de segurança. 

Mas parte de mim acredita que nenhuma dor é silenciosa, nós é que inventamos isso para confortar nossos corações aflitos e a negligência para com nossos sentimentos. 
Essa parte de mim puxa meus cabelos para chamar minha atenção, para que eu volte das nuvens onde minha cabeça estava e olhe a verdadeira realidade em volta, escute os gritos das mágoas e ressentimentos grudados nas paredes de casa. Me mostrando que o sofrimento é escandaloso, mas que nós escolhemos ficar surdos para sobreviver. Abafando as vozes dos fantasmas que se escondem atrás dos retratos, que choram testemunhando as tristezas que vivemos, que eles já viveram  e sabem que não vão levar a nada. 
As vezes converso com eles, quando as dores de cabeça vem e não posso continuar com meus fones de ouvido. 
Eles sussurram uns por cima dos outros:
"Lute!"
"Lute e depois voe, Passarinho"
"Suas asas ainda são novas e bonitas Passarinho, então voe para longe..." 
"Conheça o mundo, Passarinho"
"Conheça pessoas, Passarinho"
"Aprenda, Passarinho"
"Ame Passarinho"
"Não seja como nós, Passarinho, vivemos a gritar e chorar dentro de nós mesmos"
"Ecos perdidos nas paredes, presos em nossas dores até que possamos perdoar nossas feridas e nossos agressores" 
"Até perdoarmos a nós mesmos" 
"Vá Passarinho e não olhe para trás" 
"Sabemos que dá medo, mas aqui é só uma gaiola onde te machucaram alegando ser amor" 
"Te incentivaram a voar Passarinho, mas só dentro da gaiola" 
"Que liberdade é essa, Passarinho?" 
"Que amor é esse, Passarinho?" 
"Voe Passarinho"
"Viva Passarinho". 


               Gomes,Fernanda

7.02.2018

Fuja de mim



Estou andando, mas não sei ao certo onde estou. Ao meu redor tudo é escuro e frio. A névoa é densa e corre por meus tornozelos como serpentes, é tão úmida que sinto meus pulmões arderem e meus olhos lacrimejarem ao respirar profundamente, mas se não fizer isso meu coração acelera e começo a entrar em pânico.
Além da névoa a realidade é como um pesadelo distante que aos poucos se aproxima, está se fechando ao meu redor tentando me sufocar, é confusa e inconsistente alterando-se ao mais breve olhar com sombras de criaturas sujas de olhos negros e dentes maiores que a boca, elas rastejam pela névoa a minha procura. Entre elas há alguma coisa que espreita e me acompanha passo a passo, posso sentir. O medo é quase tão intenso quanto o cálido suor que escorre por meu pescoço então resisto a vontade de olhar para trás.
Não me lembro como cheguei aqui e nem onde esse “aqui” realmente é. Penso que talvez esteja dormindo, mas parece tão real que esta hipótese quase não se sustenta. Sinto meus jeans favoritos roçando nos meus pés descalços, sinto o chão frio sob eles. É real. De alguma forma. Penso em gritar por alguém, mas a intensa presença que me sonda esmaga minha garganta enquanto me esforço para continuar calma, tenho certeza de que se eu parar essa sombra me ataca. Ando. Mais depressa de repente. Ainda mais. Só tenho uma chance de escapar, correr o mais rápido possível, despista-la. Então eu corro mesmo sem saber para onde vou. Tento não manter um padrão para que não me pegue. Corro tanto e tão depressa que meus músculos reclamam, meus pulmões queimam, meus pés doem pelo atrito. Não desisto.
Atrás de mim ela corre, tão depressa quanto eu, mais selvagem, menos humana. Ouço um rosnado tão alto que reverbera dentro de mim, me faz tremer os ossos. Um som metálico segue o rosnado, parecem garras, elas cortam o ar e o chão enquanto a besta se impulsiona para frente e me pergunto quanto tempo levará para que me corte também. Ela ri com escarnio como se tivesse escutado meus pensamentos. Tremo de novo.  Ainda não sei onde estou, a quanto tempo estou correndo ou para onde estou indo. Ela ri de novo, e rosna e fere o ar com as garras, com os dentes.
Sinto um cheiro metálico, é forte, enjoa e é familiar também. Sinto algo escorrer por meus braços, talvez seja o suor da corrida, mas é pegajoso e escorre pesado até meus cotovelos. Estendo meus braços a minha frente, eles sangram. Não sei de onde vem, não há ferimentos visíveis embora doa dentro de mim, como se por dentro tivessem arrancado pedaços e colocado a pele por cima, macia e perfeita a estender-se como um tapete sobre a sujeira mal varrida. O sangue apenas serve de combustível para o monstro que me persegue que respira fundo a cada gota que caí pelo caminho e rosna mais. Não posso olhar mas imagino a saliva escorrendo por entre os dentes salientes, os músculos tencionando em excitação pela caçada, pela presa certa.
Sinto que está tão próxima agora, já poderia estraçalhar minha sombra caso houvesse luz o bastante para ter uma. Sinto que me ouviu de novo, como é possível que ouça meus pensamentos? Não importa, não há tempo para pensar nisso já que sua ânsia aumenta e ela acelera ainda mais, as garras tão ágeis no solo fazem som de lâminas. Um arrepio me atingi, como se me avisasse que já não há mais como fugir.
As garras atingem minhas costas tão fundo que arqueio enquanto grito, enquanto desabo. Tremula coloco a mão direita sob as costas para avaliar o estrago enquanto com a mão esquerda me arrasto para frente. Não há cortes, mas há sangue outra vez, mais uma ferida invisível.
Sinto mãos de dedos gélidos a agarrar-me os tornozelos, arrastando e virando em sua direção. Não tem porque gritar ou para quem. As criaturas escondidas nas sombras, aquelas que não conseguiram me encontrar antes, parecem mais perto, sussurrando e rosnando em puro êxtase. A criatura a minha frente solta uma das mãos e rasga o ar, o brilho das garras ensanguentadas e o rosnado gutural afugenta as pequenas criaturas intrometidas. Então me segura de novo, me puxa como uma boneca de trapos. Prende-me com um braço a cada lado de meu corpo e se aproxima acima de mim, tão próxima que sinto sua pele gelada tocando minhas roupas.
Seu rosto ainda é confuso e não consigo coloca-la em foco, como se meus olhos não quisessem ver como realmente era. Forço-me a enxergar enquanto aproxima, cara a cara finalmente. Encho meu peito de uma coragem que devo ter roubado de alguém em algum momento e que prometo mentalmente devolver um dia. Ela olha para mim, tão fundo em meus olhos, olhos cheios de medos enquanto os dela são cheios de raiva e de uma crueldade lasciva.
Que monstro é esse que sabe exatamente onde me ferir sem deixar marcas visíveis? Que dilacera minha alma e banha meu corpo em sangue? Sabe exatamente onde fincar os dentes e matar-me por dentro. Olho de novo para ela, para o rosto todo e o grito que saí de mim vai além da garganta e do pulmão, chega até o mais profundo dos meus segredos. Porque por baixo das fileiras de dentes afiados, dos olhos mais assombrados, reconheço minha besta, a única que poderia me fazer tão mal. Muito mais do que qualquer outro pequeno monstro por aí, a única que poderia me encontrar e alcançar não importando para que direção eu corra, a única de quem não posso fugir. A única que pode me destruir totalmente.... Ela sou eu. Porque as vezes nossos maiores monstros não surgem debaixo da cama, mas sim de dentro de nós.
                                          Gomes, Fernanda.

6.17.2018

Sob a luz que ela habita



Foi no começo do outono que ela me viu pela primeira vez, me viu de verdade como ninguém jamais havia visto, mas eu já estava completamente a mercê dela. Nem sei bem quando começou, se era inverno ou primavera, porque estar com ela era sentir o mais puro calor do Sol. Como abraçar uma estrela sem se queimar. Era luz, era verdadeiro. Assim como tudo sobre ela. 
Pensei que passar o verão longe seria difícil, sem as aulas não poderia cruzar com ela nos corredores com o sorriso forçadamente perfeito para todos, verdadeiramente belo para os amigos.  Mas a sorte, que nunca me visita, resolveu sorrir para mim. Ela se apaixonou por filmes pouco antes das férias e ia todas as sextas – feiras e finais de semana ao cinema em que eu trabalhava. Não era um lugar muito popular, não estava à altura dela. Era um lugar velho e histórico cheio de fantasmas enrolados em projetores, era úmido e frio, cheirava a manteiga por toda parte. E mesmo assim ela parecia encantada.
Geralmente eu punha os filmes para rodar, sentava em uma cadeira ao lado do projetor e assistia as mesmas produções dezenas de vezes por semana até decorar as falas, as músicas, anotar cada detalhe, desvendar cada mistério dos bastidores. Depois que ela começou a aparecer não conseguia tirar os olhos dela. À vi sem querer da primeira vez chegando atrasa e tentando não atrapalhar ninguém. A partir daí passei a ficar debruçado na janela da cabine observando-a, cada reação de espanto e ansiedade eram deliciosas, só não mais tocantes do que vê-la chorar assistindo uma obra dramática. Genuína é a única palavra que parece combinar com ela.
Genuína em suas emoções, em suas reações, em sua beleza, em sua profundidade, em sua inteligência. Olhar em seus olhos era como atravessar o Sol e chegar ao mais profundo dos universos, repleto de mistérios e de escuridão.  
Tentei me convencer de que não tínhamos nada em comum que - diferente de todas as obras clichês em que os protagonistas são exatamente opostos e mesmo assim se apaixonam e tudo sobre eles faz sentido de repente, porque estarem junto é o mais importante - nós dois não tínhamos nenhuma chance. No entanto a medida que nos aproximávamos ignorando todo e qualquer bom senso, eu era capaz de ver as sombras por traz da luz que ela emanava, como se tentasse esconder de todos.
Não porque se envergonhava de seus próprios demônios, na verdade ela parecia compreende-los muito bem, mas escondia-os para proteger quem estivesse ao seu redor. Diferente de mim que exibia os meus como obras de arte em um leilão e com isso afastava a todos, ela os guardava tão dentro de si que só quem realmente admirasse sua alma veria os vultos que hora ou outra passavam ligeiros pelos cantos se esgueirando como mofos nas paredes, resistindo a luz que ela deixava entrar pelas janelas de si mesma.
         Não espero que ela acabe de vez com seus pesadelos e nem que sucumba a eles, quando tudo se torna escuro e frio é como se a cor e a vida fugissem de você aos poucos. E diferente das pessoas a sua volta, não espero que ela não cometa erros. Sua perfeição está exatamente nas peculiaridades que carrega. Espero apenas crescer ao lado dela, mostrar que não está sozinha, que nunca vai estar.
E mesmo que dentro dela tudo transbordasse iluminado e inundasse cada átomo ela ainda sim me fez brigar pelas centelhas de luz que aos poucos sumiam de dentro de mim.
 Já tinha aceitado quem eu era, que tudo o que perdi na vida era minha culpa, tinha desistido de qualquer traço mais marcado de felicidade. Mas ela apareceu e me fez lutar. Lutei por mim. Lutei por ela. Para ser digno dela. E continuarei ao seu lado por todos os invernos e primaveras. Porque no fim das contas a verdadeira luz de que preciso está com ela e a única escuridão que não me assusta está no fundo dos olhos dela.
Gomes, Fernanda


6.13.2018

Sob a escuridão que ele habita




O outono se aproxima como um furacão de folhas alaranjadas e silenciosas. Junto com ele o amor se estende e sussurra frio em meus ouvidos inesperadamente, me fazendo arrepiar.
Ou talvez seja sua voz, seus olhos, sua sombra a cada dia maior quase a engoli-lo por inteiro. Mas ainda posso ver aquela faísca de luz em seu olhar, tão sólida quanto um fogo azul endurecido por todas as coisas que já viveu.
Tem somente 18 anos e fuma como uma chaminé no inverno mais rigoroso. Tem somente 18 anos e cuida de sua motocicleta como um especialista. Só 18 anos e amarra suas botas como um verdadeiro veterano de guerra que faz tudo com firmeza e agilidade. E com 18 anos viu seu pai beber até cair inúmeras vezes, sua irmã chorar dentro de seus braços desde pequenos, foi para isso que ele amadureceu tão rápido, para protege-la da realidade dura que os cercavam. Mesmo assim não foi o bastante, sua mãe não o julgou forte o suficiente e, na verdade, ele podia jurar que ela o achava fraco... como todos os outros também e por isso elas foram embora e o deixaram para trás.
Não teve escolha se não viver sozinho nos fundos de um galpão qualquer. Tinha um amigo ou dois com quem podia conversar, fumar, matar aula. Não tinha ninguém com quem realmente contar, com quem compartilhar sua genialidade incompreendida. Não se julgava digno de intimidade e calor humano.
Mesmo assim eu o vi, sob seus demônios lutando com unhas e dentes pela parte da alma que ainda preservava dentro de si. E agradeço por ter visto e por ele ter me visto também, ainda que rápido demais e sem jeito. Não espero que tire sua jaqueta costurada de pesadelos e mostre um mocinho perfeito de filmes infantis, muito menos que se cubra inteiro de escuridão e perca-se de si mesmo.
Espero apenas mostrar a parte do mundo que conheço e que não parece fazer parte da vida dele, quero mostrar a beleza que vejo ao olhar para ele, tão peculiar e intensa como o isqueiro talhado a mão que carrega no bolso esquerdo das calças largas demais para alguém que não vive nos anos 80. Sua escuridão me atraiu como a um morcego procurando abrigo do Sol indomável ao iniciar mais um dia, no entanto mais do que isso, a necessidade de me abrigar em sua alma clara e mantê-la acesa me consume como uma vela na noite mais escura, não parece suficiente, mas é tudo o que tenho.
E de alguma forma tenho a certeza de que sempre terei essa necessidade, como o ar que preciso para respirar, como a centelha de amor que ele consegue transpirar por cada célula, mesmo que pense que ninguém está lá para reparar...Eu estou... e continuarei, desde os primeiros raios de Sol ás últimas horas da noite, para sempre.

Gomes, Fernanda

6.12.2018

SUPERAR



Acordei. Olhei pela janela. Amanheceu. E a luz intrusa que se esgueirava pelas persianas semiabertas denunciavam um dia de Sol. Levantei-me, abri as persianas, as janelas, a porta que dava para a varanda. Debrucei-me sobre o parapeito.
Era sem dúvida alguma um dia perfeito, as poucas nuvens no céu são tão grandes e claras que projetam sombras nas árvores a minha frente, me fez lembrar daqueles imensos balões dos desfiles de feriados, pensar nisso me fez pensar nele e em como ficava empolgado com esses desfiles estúpidos. Assim como todo o resto.
Ele era um amante da vida e o mundo era seu quarto. Não havia um lugar em que não se sentisse a vontade ou uma pessoa que não se apaixonasse por ele. Não os culpo por isso, como poderia? Olhar para ele era como olhar aqueles quadros renascentistas de pessoas na praia. Trazia paz, trazia alegria e te fazia imaginar como era estar ali, como era ser aquelas pessoas, como era ser ele. Sentir o que ele sentia, ver do jeito que ele via. Como se cada amanhecer fosse um milagre e cada anoitecer um pequeno bigbang que nos permitia observar melhor as maravilhas do universo.
Cada estrela devia estar chorando sua perda, assim como cada pássaro, cada flor, cada um dos tantos autores que ele admirava. Mas nenhum deles fez isso, porque nenhum deles sabia. Então chorei por eles, por cada um, por todos juntos. Mas não adiantou. Não fez com que a Morte ou seu orgulho se movessem nem mesmo um centímetro, não precisava ser muito, apenas o suficiente para que ele pudesse escapar e fugir... e correr... e correr ainda mais rápido... e ... voltar.
Para onde meus braços ainda aguardam abertos a sua espera, onde meu coração aguarda apertado pelas garras da mágoa que me consomem, onde meus pulmões queimam sufocados por todas as palavras que não disse, onde minhas pernas tremem, pois o mundo nunca mais pareceu firme o bastante para caminhar só.
Talvez por isso eu prefira não levantar por muito tempo, embora as vezes seja preciso. Se eu não me levantar mais os lençóis ficarão com meu cheiro e perderão o dele, não poderei ver uma manhã como a de hoje e procurar por ele em cada uma dessas coisas. E então não encontrar e sentir aquela dor.
Porque a dor faz sentido, é a única coisa que ainda faz sentido em meio as alegrias vazias que me cercam, os sorrisos falsos de afeto, os abraços apertados demais. A dor é tão real, é quase tão grande quanto o amor que sinto por ele, que me consome e me agita, que suplica para que eu abra sua prisão e o deixe respirar e gritar que ainda há algo de bom dentro de mim, que ainda sou capaz de amar.
Como posso amar alguém que não seja ele? Como posso seguir em frente se todos os rascunhos de futuros e aventuras que fiz, e que ainda estão guardados no fundo daquela gaveta velha segura no fundo da minha mente, tem ele como meu companheiro de viagem? Desde que se foi, aparece somente no meio da noite com seus olhos frios me encarando ao lado da cama, os lábios tão firmes que parecem estar tentando a todo custo sufocar o último suspiro dentro de seus pulmões, porque mesmo que ele estivesse tranquilo eu sabia que não queria partir.
Já faz algumas noites que isso não acontece mais, acho que estamos superando juntos. Ele lá e eu aqui.
Percebo que está anoitecendo, o vento frio do crepúsculo me desperta de velhas lembranças deliciosamente dolorosas. Percebo que não chorei hoje, não me lembro se chorei ontem. Não estou certa de que chorarei amanhã. 
Aquela velha gaveta estala, range e geme pedindo para que abra meus rascunhos, passe a limpo o que for possível e volte a viver. Olho para o lado e o vejo, segurando minha mão. Não parece como o velho cadáver que vi sobre a cama do hospital e sim como o aventureiro curioso de que me lembro. Me olha nos olhos e sorri. Sinto que talvez eu possa voltar a sorrir também.
Peço para que fique. Ele diz que não pode, que seu tempo é curto e ele tem de voltar.
“ Para onde? ” – Pergunto
“ Para casa. “ – Responde com suavidade.
“ Mas e aqui? E eu? “
“ Será sempre meu lugar favorito no universo e antes que perceba estaremos juntos de novo”
É hora de entrar, de dormir. E amanhã, tudo de novo.
“ É sem dúvida alguma um dia perfeito. Porque você está aqui. Porque há vida em você e em mim, mas de formas diferentes. É hora de continuar, minha querida. Até um dia.”
Não me deixou falar, beijou-me a testa e partiu. Virando-se apenas para dizer:
“ Não se preocupe, sei de cada palavra sua, são minhas também. Não se preocupe com o amor, é meu também. Não precisa pensar em mim sempre, ainda estou por aí. “
Me distrai a tal ponto que a gaveta de planos se abriu, aproveitou-se do turbilhão de sentimentos e voou e cresceu sem permissão. Se infiltrou em minha imaginação e fincou suas raízes fundo em minha alma me permitindo pensar:
“ Posso superar ”.

Gomes, Fernanda