Acordei. Olhei pela janela.
Amanheceu. E a luz intrusa que se esgueirava pelas persianas semiabertas
denunciavam um dia de Sol. Levantei-me, abri as persianas, as janelas, a porta
que dava para a varanda. Debrucei-me sobre o parapeito.
Era sem dúvida alguma um dia
perfeito, as poucas nuvens no céu são tão grandes e claras que projetam sombras
nas árvores a minha frente, me fez lembrar daqueles imensos balões dos desfiles
de feriados, pensar nisso me fez pensar nele e em como ficava empolgado com
esses desfiles estúpidos. Assim como todo o resto.
Ele era um amante da vida e o
mundo era seu quarto. Não havia um lugar em que não se sentisse a vontade ou
uma pessoa que não se apaixonasse por ele. Não os culpo por isso, como poderia?
Olhar para ele era como olhar aqueles quadros renascentistas de pessoas na
praia. Trazia paz, trazia alegria e te fazia imaginar como era estar ali, como
era ser aquelas pessoas, como era ser ele. Sentir o que ele sentia, ver do
jeito que ele via. Como se cada amanhecer fosse um milagre e cada anoitecer um
pequeno bigbang que nos permitia observar melhor as maravilhas do universo.
Cada estrela devia estar
chorando sua perda, assim como cada pássaro, cada flor, cada um dos tantos
autores que ele admirava. Mas nenhum deles fez isso, porque nenhum deles sabia.
Então chorei por eles, por cada um, por todos juntos. Mas não adiantou. Não fez
com que a Morte ou seu orgulho se movessem nem mesmo um centímetro, não
precisava ser muito, apenas o suficiente para que ele pudesse escapar e
fugir... e correr... e correr ainda mais rápido... e ... voltar.
Para onde meus braços ainda
aguardam abertos a sua espera, onde meu coração aguarda apertado pelas garras
da mágoa que me consomem, onde meus pulmões queimam sufocados por todas as palavras
que não disse, onde minhas pernas tremem, pois o mundo nunca mais pareceu firme
o bastante para caminhar só.
Talvez por isso eu prefira não
levantar por muito tempo, embora as vezes seja preciso. Se eu não me levantar
mais os lençóis ficarão com meu cheiro e perderão o dele, não poderei ver uma
manhã como a de hoje e procurar por ele em cada uma dessas coisas. E então não
encontrar e sentir aquela dor.
Porque a dor faz sentido, é a
única coisa que ainda faz sentido em meio as alegrias vazias que me cercam, os
sorrisos falsos de afeto, os abraços apertados demais. A dor é tão real, é
quase tão grande quanto o amor que sinto por ele, que me consome e me agita,
que suplica para que eu abra sua prisão e o deixe respirar e gritar que ainda
há algo de bom dentro de mim, que ainda sou capaz de amar.
Como posso amar alguém que não
seja ele? Como posso seguir em frente se todos os rascunhos de futuros e
aventuras que fiz, e que ainda estão guardados no fundo daquela gaveta velha
segura no fundo da minha mente, tem ele como meu companheiro de viagem? Desde
que se foi, aparece somente no meio da noite com seus olhos frios me encarando
ao lado da cama, os lábios tão firmes que parecem estar tentando a todo custo
sufocar o último suspiro dentro de seus pulmões, porque mesmo que ele estivesse
tranquilo eu sabia que não queria partir.
Já faz algumas noites que isso
não acontece mais, acho que estamos superando juntos. Ele lá e eu aqui.
Percebo que está anoitecendo, o
vento frio do crepúsculo me desperta de velhas lembranças deliciosamente
dolorosas. Percebo que não chorei hoje, não me lembro se chorei ontem. Não
estou certa de que chorarei amanhã.
Aquela velha gaveta estala,
range e geme pedindo para que abra meus rascunhos, passe a limpo o que for
possível e volte a viver. Olho para o lado e o vejo, segurando minha mão. Não parece
como o velho cadáver que vi sobre a cama do hospital e sim como o aventureiro
curioso de que me lembro. Me olha nos olhos e sorri. Sinto que talvez eu possa
voltar a sorrir também.
Peço para que fique. Ele diz que
não pode, que seu tempo é curto e ele tem de voltar.
“ Para onde?
” – Pergunto
“ Para casa.
“ – Responde com suavidade.
“ Mas e aqui?
E eu? “
“ Será sempre
meu lugar favorito no universo e antes que perceba estaremos juntos de novo”
É hora de entrar, de dormir. E
amanhã, tudo de novo.
“ É sem
dúvida alguma um dia perfeito. Porque você está aqui. Porque há vida em você e
em mim, mas de formas diferentes. É hora de continuar, minha querida. Até um
dia.”
Não me deixou falar, beijou-me a
testa e partiu. Virando-se apenas para dizer:
“ Não se
preocupe, sei de cada palavra sua, são minhas também. Não se preocupe com o
amor, é meu também. Não precisa pensar em mim sempre, ainda estou por aí. “
Me distrai a tal ponto que a
gaveta de planos se abriu, aproveitou-se do turbilhão de sentimentos e voou e
cresceu sem permissão. Se infiltrou em minha imaginação e fincou suas raízes
fundo em minha alma me permitindo pensar:
“ Posso
superar ”.